Desbunde: Chocante, puro, ousado e libertário

Com frases como “A vida não tem paetês. A gente que faz o brilho…”, texto de Sergio Maggio e direção de Juliana Drummond ganha palco do Dulcina e merece ganhar aplausos

 

Fotos de cena: Sartoryi
Foto de divulgação: Diego Bressani

Roustang Carrilho, Kael Studart, Tullio Guimarães, Guilherme Monteiro e Tulio Starling encenam Desbunde

Roustang Carrilho, Kael Studart, Tullio Guimarães, Guilherme Monteiro e Tulio Starling encenam Desbunde

Há muito existia a expectativa por um espetáculo que me fizesse sair de casa para dar boas e verdadeiras risadas e até me levar a refletir e molhar os olhos. Ao Teatro Dulcina fui. Na esperança de ver mais uma montagem interessante visualmente e com piadas gays prontas. Contudo, Desbunde, me desbundou.

Inspirada no documentário “Dzis Croquettes”, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, que conta como foram as ações de um grupo no enfrentamento à ditadura militar, nasceu o argumento para a criação da peça.
Texto moderno, bem costurado e com ares vintages – no melhor esquema máquina do tempo, sabe? –, histórias de 1970, gírias de 2014 caqueadas a todo momento, como forma de dar um F5 na linguagem escolhida para a montagem, visto que os gays são mestres inventivos e transformam/adicionam/criam novos termos e significados ao português. E assim também são corpos performáticos, ardentes e instigantes com barbas, pelos, tatuagens e muito brilho.

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Apesar de não serem exímios bailarinos, os atores fazem bonito com seus corpos à mostra ao som de canções incríveis. Movem-se sobre saltos altíssimos, contrariando a moda da próxima temporada (e como se sustentam bem sobre eles, chega a ser impressionante!). Sabe-se lá porque fui escolhido para subir ao palco de Dulcina durante o espetáculo para participar, meio envergonhado, de uma cena. Mas a magia do palco me soltou e me senti à vontade ao lado do elenco cheio de beldades. Entendam “beldades” como o mais puro significado da palavra, afinal, de tão visceral e nú, o elenco aparece sem barreiras e chama, chama muita atenção.
Em um ambiente esfumaçado com glicerina, um ar de “subsolo”, de “proibido” e de “ilegal” se instala. Uma mistura de “tempos reais” com imagens de um passado que ainda fere boa parte dos brasileiros: a ditadura militar.

Elenco escolhido como luvas

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O papel da arte de instigar a reflexão está bem representado. Uma verdadeira crítica social e até política. Com formato cênico-musical-moderno, o texto de Sergio Maggio ganha movimento com poucas saídas de cena dos personagens Saquarema Satanás (Roustang Carrilho), Petit Du Buá (Kael Studart), Savana Sargentelli (Guilherme Monteiro), Marquesa (Tulio Starling) e nenhuma saída de Claudia Valeria (Tullio Guimarães), que acena como um “maestro” da trama.

Momentos de respiro se mesclam ao movimento que tira a plateia do prumo – como que em um desafio em que os espectadores. Atores se “jogam” no meio das cadeiras e ficam próximos aos espectadores, hora tirando a roupa, hora vestindo acessórios e hora surpreendendo. Esses momentos são preciosos.
Personagens, com trajetórias bem definidas e contadas com muito humor, se mostram com características fortes. Uma mineira, outra vingativa, aquela bem sexy, a tarada e a saudosista fazem o público saltar das poltronas do desconfortável, mas amado, Teatro Dulcina.

Trilha espetacular

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Algo que me instiga muito em teatro é a trilha sonora. Criar encenação como forma visceral e profunda exige que a trilha esteja afinada com as atitudes e com as ações dos personagens. Mas em “Desbunde”, as canções ultrapassam a função de apenas sinalizar cenas ou emoções. Elas fazem refletir, relembrar e comemorar, afinal, não é todo dia que é possível ouvir “Marrom Glacê” (Ronaldo Resedá), “Vingativa” (Frenéticas), “Risque” (Ângela Maria), “I Gotcha” (Lisa Minnelli), “Vogue” (Madonna) e até a recente descoberta Lorde, com “400 Lux”, tudo junto e misturado. Uma salada musical que passeia pelo tempo e que funcionou muitíssimo bem.

“Desbunde” pode (e para mim já é!) o retorno do amor ao teatro brasiliense que anda tão decadente após o fim de tantas e tantas companhias. É o primeiro passo para que a cidade respire novamente os ares culturais de anos atrás e que a qualidade seja pano de fundo.

Estrelas? Pra mim, são 5!

Quer ir?

Desbunde “A festa nunca vai acabar…!”
Teatro Dulcina de Moraes (Conic)
De quinta a sábado, às 21h, até 06 de dezembro (neste dia, haverá sessão dupla às 21h e meia noite)
Ingressos: R$ 20 (inteira); R$ 10 (meia).
Pontos de venda: Balaio Café (201 Norte), Verdurão (Conic), Aloja.com ou bilheteria do teatro
Informações: 8122-8377 ou 8177-6218
Classificação Indicativa: Não recomendado para menores de 18 anos.